segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Desafinado

Há uns tempos atrás disse que eramos todos magaiveres. Pela simples razão que o brasileiro não deixa que a gramatica impeça uma boa ideia, especialmente se dela depender a sua subsistência.

Mas não somos só magaiveres, também somos rodins, giacometis, miguelangelos, niemeyeres e loiderraites. No fundo nascemos todos com isto dentro de nós, este potencial de realização de concretização.

Lembrei-me disto porque não sei fazer nada (afinal sou consultor, não é preciso saber fazer para dizer aos outros como se faz). Não sei carpintaria nem marcenaria, não sou electricista nem mecânico, não sou serralheiro nem pintor, nem arquitecto, nem designer, nem engenheiro nem porra nenhuma: estudei artes e não sou artista.

Ou melhor, sou. Somos todos, a maior parte sem o saber.

“O gaijo é um artista...” é uma frase muito usada para aqueles que sem saberem nada conseguem atingir alguma coisa.

A loja ficou como imaginei. Fiz o desenho ao Silvio e ele concretizou. As estruturas metálicas para a exposição ficaram como imaginei.

As nossas mão não servem só para agarrar canetas, ratos de computador ou para teclar na internet. As nossas mãos são a ferramenta que temos usado para moldar o mundo. À medida da nossa vontade, do nosso desejo, do nosso desenho.

João Gilberto disse:

“Se voce disser que eu desafino, amor
Saiba que isso em mim provoca imensa dor
So previlegiados tem ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que deus me deu”

Mas tambem podia ter dito:

“Se voce disser que eu não sei pintar, amor
Saiba que isso em mim provoca imensa dor
So previlegiados tem dom igual ao seu
Eu possuo apenas o que deus me deu”

Ou:

“Se voce disser que eu não sei fazer uma parede direita, amor
Saiba que isso em mim provoca imensa dor
So previlegiados tem um olho igual ao seu
Eu possuo apenas o que deus me deu”

Ou até:

“Se voce disser que eu não sei serrar, amor
Saiba que isso em mim provoca imensa dor
So previlegiados tem um braço igual ao seu
Eu possuo apenas o que deus me deu”

“Voce passou a musica/pintura/alvenaria/carpintaria e esqueceu o principal
Que no peito dos desafinados/esborratadores/aprendizes de pedreiro e de marceneiro
No fundo do peito bate calado
No peito dos desafinados/esborratadores/aprendizes de pedreiro e de marceneiro
tambem bate um coracao”

Vivam os que fazem, mesmo sabendo (e às vezes nem sabendo) que não sabem o que deviam saber para fazerem o que fazem.

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